Resenha: A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

by - julho 25, 2017



O ano é 1911. Em um Brasil Retrofuturista...

Dirigíveis gigantescos dominam o céu. Abaixo, o vapor cinzento dos bondes, fábricas e estaleiros soma-se à fumaça dos charutos, cachimbos e cigarrilhas. Vozes robóticas, barulho de hélices e maquinarias misturam-se ao alarido do povo.

Isaías Caminha é um jornalista carioca encarregado de ir até Porto Alegre cobrir um dos maiores escândalos dos últimos tempos: os assassinatos em série cometidos pelo antes respeitado médico Dr. Antoine Louison. Acusado da morte de 8 membros influentes da sociedade, ele agora é visto como um "monstruoso pederasta", "terrível diabo", "assombrosa perversão da natureza", "Mefistófeles tupiniquim" e tantas outras alcunhas dignas de manchetes sensacionalistas. 

Caminha se interessa muito pelo caso, mas não pelo que está sendo dito por todos da cidade e sim pelo misterioso Dr. Louison e os motivos por trás daqueles crimes. Após pesquisar mais sobre a sua vida e encontrar Vitória Acauã, uma bela mulher ligada ao médico, o interesse profissional do repórter torna-se pessoal e ele acabará muito mais envolvido do que imaginava, principalmente após a inexplicável fuga de Louison do asilo São Pedro para Psicóticos e Histéricas, onde estava internado até sua execução. 

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Eu tive um começo bastante difícil com esse livro e acho que muito disso deve-se ao fato de que não sabia muito o que esperar dele. Comprei meio por impulso porque tinha achado a capa linda e porque quero ler mais livros nacionais. Li a sinopse rapidamente na hora da compra, mas quando peguei pra ler já não me lembrava mais de nada e preferi ler no escuro mesmo. 

O livro é dividido em seis partes, sendo a primeira delas narrada por Isaías e isso quase me fez desistir do livro. Sua narrativa faz uso de palavras rebuscadas e construções muito elaboradas para falar de coisas simples. Entendi depois que isso fazia parte da construção do personagem, mas num primeiro momento estava me afastando bastante da história. Resolvi insistir por ser um dos livros da minha meta da #MLI2017 e fui com isso fui presenteada com gratas surpresas.


Eu imaginava, principalmente pela capa, que seria um livro mais voltado para a aventura, com bastante ação em meio a esse cenário ao mesmo tempo antigo e futurista. Mas grande parte da história é composta por mensagens trocadas entre os personagens e registros em seus noitários (seria uma espécie de diário que é escrito pela noite?). Por isso, ele é mais reflexivo e focado no desenvolvimento das personalidades, na interação entre os personagens e em seus anseios do que nos acontecimentos em si.

As mensagens datam desde antes dos crimes, por isso o mistério nos é apresentado como um grande quebra-cabeças que vai clareando aos poucos junto com cada relato. E eu gostei tanto disso! E através dos registros dos noitários, vamos podendo conhecer verdadeiramente cada um que faz parte dessa trama.


Há uma lição a ser aprendida nesta lenda, a lição de que tanto a morte quanto o amor são irmãos gêmeos, Eros e Thanatos sempre abraçados, um fundido ao outro. Morta, estou estática abaixo da terra. Apaixonada, estou estática acima dela. Quem bebe do precioso tajá entrega-se aos braços de outro, sendo ele um verdadeiro devorador ou um amante faminto. 


Enéias revisitou e homenageou várias obras da literatura clássica brasileira. Personagens marcantes como Pombinha e Rita Baiana (O cortiço) e Solfieri (Noite na Taverna) continuam suas histórias nesse livro. Mesmo fazendo parte de universos e contextos bem diferentes, eles se encaixam de uma maneira muito natural e interessante. Fiquei feliz por conhecer e lembrar de alguns deles (até que minha memória não tá tão ruim assim), mas no final, o autor cita todos os personagens e livros que foram utilizados, caso alguém não conheça e queira saber mais sobre eles. Fiquei bastante interessada em O Alienista.

Eu não tenho muita experiência com Steampunk, na verdade li apenas dois livros Cyberpunk que acredito ser ligeiramente diferente. E por isso senti falta de um desenvolvimento maior do universo, dos cenários e das invenções, tão contrastantes com a época antiga. Há citações pontuais de alguns mecanismos e tratamentos robóticos, mas na maior parte do tempo, sentia que a história podia estar se passando no começo do século XX como o conhecemos. 


As páginas de A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison estão recheadas de críticas a abusos e preconceitos daquela época, que infelizmente se estendem até os dias de hoje, mesmo que de forma mais velada (ou não). E acho que as conclusões que tiramos a partir delas seriam a grande lição que dá nome ao livro. Entre outros, são abordados temas como preconceito racial, de gênero e orientação sexual e em algumas partes fiquei com um nó na garganta e tive que dar umas pausas na leitura. Mas são assuntos dos quais não podemos fugir e toda discussão é extremamente válida e fundamental. 


Será? É precisamente isso que discutiremos. Do quanto, às vezes, não há relação entre o que é justo e o que é correto. Do quanto, às vezes, leis aceitas devem ser quebradas em busca de uma beleza que nem sempre está ao lado da bondade. 

Vi algumas críticas ao final, mas ele foi bem satisfatório para mim, não consegui pensar em outra forma da história terminar. E apesar desses pequenos poréns que falei aqui, esse livro me conquistou bastante, principalmente conforme as horas foram passando após o término da leitura e fui pensando mais sobre ele.  

Para quem quiser dar uma chance (e recomendo bastante que faça isso), ele está disponível no Kindle Unlimited, assim como dois contos sobre os personagens que também já quero ler. É só clicar nas imagens para ser redirecionado para a Amazon :)


  

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   Autor: Enéias Tavares
   Número de Páginas: 304
   Editora: Fantasy - Casa das Palavras
   Idioma: Português



   Skoob/Goodreads




Sinopse: 1911. Porto Alegre. Dirigíveis gigantescos dominam o céu. Abaixo, o vapor cinzento dos bondes, das fábricas e dos estaleiros ao redor soma-se à fumaça dos charutos, dos cachimbos e das cigarrilhas. Vozes robóticas, barulho de hélices e maquinários misturam-se ao alarido do povo. De um Zepelin, desembarca Isaías Caminha, um jornalista carioca enviado à cidade para escrever uma matéria sobre o assassino em série Antoine Louison, que há poucos dias assombrava o local com um verdadeiro show de horrores: a exposição dos órgãos de suas vítimas.
A aventura começa depois que o Dr. Louison, finalmente capturado e preso no hospício, desaparece misteriosamente de sua cela de segurança máxima sem deixar vestígios. Nesta busca pelo paradeiro do assassino, Isaías e um grupo de investigadores ainda vão topar com conhecidos do Dr. Louison, pertencentes a uma sociedade secreta de intelectuais, chamada Parthenon Místico, que estão dispostos a tudo para defendê-lo e desmascarar os criminosos.
Esses amigos de Louison são alguns aclamados personagens da literatura brasileira, em brilhante reinvenção: Rita Baiana e Pombinha, de Aluísio Azevedo, Simão Bacamarte, de Machado de Assis, Solfieri, de Álvares de Azevedo, entre outros.

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