"Shelley e a mãe foram maltratadas a vida inteira. Elas têm consciência disso, mas não sabem reagir - são como ratos, estão sempre entocadas e coagidas. Shelley, vítima de um longo período de bullying que culminou em um violento atentado, não frequenta a escola. Esteve perto da morte, e as cicatrizes em seu rosto a lembram disso.Ainda se refazendo do ataque e se recuperando do humilhante divórcio dos pais, ela e a mãe vivem refugiadas em um chalé afastado da cidade. Confiantes de que o pesadelo acabou, elas enfim se sentem confortáveis, entre livros, instrumentos musicais e canecas de chocolate quente junto à lareira. Mas, na noite em que Shelley completa dezesseis anos, um estranho invade a tranquilidade das duas e um sentimento é despertado na menina. Os acontecimentos que se seguem instauram o caos em tudo o que pensam e sentem em relação a elas mesmas e ao mundo que sempre as castigou. Até mesmo os ratos têm um limite."

Número de páginas: 240
Autor: Gordon Reece
Editora: Intrínseca
Idioma: português 
Gênero: Literatura Estrangeira/Thriller

Esse livro me indignou tanto que essa vai ser a primeira resenha que faço com spoilers (mas eles estarão separados do resto da resenha) porque eu preciso desabafar de alguma forma hahaha. E como eu não conheço ninguém que leu para conversar sobre, falarei aqui.

Shelley é uma garota de 15 anos que vive apenas com a mãe. Ambas são ratos, mas não literalmente falando. Ela mesma as descreve dessa forma devido a sua passividade. Nenhuma delas nunca reage a nada e aceitam tudo que as outras pessoas impõem a elas, por mais prejudicial e humilhante que seja. 

Todas nós dividíamos um elo secreto, que eu chamava, ironicamente, de sociedade dos ratos. Eu gostava de me divertir imaginando o brasão que usaríamos no peito - um rato em uma ratoeira, com o pescoço quebrado - e nosso lema "Nati ad arum" escrito sobre o desenho de um pergaminho desenrolado: nascidas com o gene de vítima.

No início do livro, elas estão procurando uma casa afastada para morarem por dois motivos: o pai de Shelley abandonou-as para ficar com sua secretária e tirou praticamente todo o dinheiro delas no processo de divórcio e Shelley foi vítima de um acidente na escola, por isso não a frequenta mais e prefere ficar isolada das outras pessoas. 

Nos primeiros capítulos ficamos sabendo mais sobre o acidente no qual suas ex-melhores amigas, as JETS (sigla formada pela letra inicial do nome das meninas), estavam envolvidas. Através dos relatos de Shelley, descobrimos que o acidente na verdade não teve nada de acidental e sim foi resultado de um violento bullying que ela sofreu por um longo período. 

Após a mudança para o Chalé Madressilva, a vida das duas parece estar se acertando: elas vivem no próprio mundinho isolado que criaram para elas, onde finalmente se sentem seguras por estarem afastadas do resto da sociedade. O único contato que Shelley tem com outras pessoas é durante suas aulas com dois tutores particulares; e sua mãe, no trabalho, onde é constantemente humilhada, assediada e explorada. 

Essa aparente vida perfeita é abalada na noite da véspera do aniversário de 16 anos de Shelley, quando um ladrão invade a casa. A menina não acredita que aquilo está acontecendo, pois já sofrera o suficiente para uma vida toda e não era justo que fosse castigada sem motivos novamente. Esse sentimento de justiça que está nascendo dentro dela e os acontecimentos dessa noite provocam uma drástica mudança na vida das duas.

Acho que é o máximo que posso falar da história sem contar mais do que devo. Minha opinião geral sobre o livro é que ele começou bem e tinha uma boa proposta ao tratar do bullying e de como pessoas mais frágeis são constantemente abusadas psicológica e fisicamente por outras e não conseguem se libertar desse abuso. Porém, não acho que a proposta foi bem desenvolvida e no meio do caminho ele ficou todo errado. Inúmeras situações foram forçadas demais e houve uma inversão de valores muito grande em alguns acontecimentos da história.

A narrativa é fluída e a escrita do autor é boa, mas não foi o tipo de livro que me deixou presa à história e com vontade de ler logo para descobrir o que aconteceria. Eu gostei de alguns trechos e de como o autor aborda essa personalidade de "rato" (até certo ponto). Como disse, acho que poderia ter sido um livro muito bom, mas como um todo ele me desagradou e incomodou muito. Não indico a leitura, porém acho que sou uma exceção, já que a sua avaliação no Skoob está bem alta e quase todas as resenhas são positivas.

A edição do livro está muito caprichada, principalmente a capa, que eu achei sensacional. Há um detalhe vazado que forma uma toca de rato com a orelha da capa.




É isso gente.. agora vem a parte com spoilers rs.

----------------------------------------------SPOILERS----------------------------------------------

Em vários momentos fiquei extremamente irritava com a passividade das duas, principalmente da mãe da Shelley. Eu consigo entender a Shelley e como ela estava se sentindo acuada e com vergonha de tudo que tava sofrendo, por isso acabou se mantendo em silêncio. Mas depois do "acidente", em que as meninas colocaram fogo nela e saíram impunes, a mãe não fez nada, ela simplesmente abaixou a cabeça mais uma vez. Eu acho que uma coisa é você ser passiva em relação a coisas que acontecem com você, outra é quando se trata da sua filha ou de alguém que você ama. 
Eu tenho que confessar que sou muito boba e passiva pra muitas coisas na minha vida, muito mais do que eu gostaria e tenho uma grande dificuldade para mudar. Mas se fizessem algo com a minha irmã mais nova (o mais próximo de filha pra mim), a coisa mudaria totalmente. 
Eu aceitaria esse tipo de comportamento da mãe se ela fosse uma pessoa mais humilde, que não tivesse recebido nenhum tipo de instrução e não tivesse conhecimento dos seus direitos, de como poderia recorrer. Mas, segundo o livro, ela era uma advogada excelente, que resolvia vários casos complicados para o escritório em que trabalhava. Então simplesmente não consegui aceitar que ela não fez absolutamente nada. Por mais fragilizada que ela estivesse com o divórcio, com a maneira que as pessoas a tratavam, COLOCARAM FOGO NA FILHA DELA. Eu sempre fico com o pé atrás para julgar pessoas que passaram por situações pelas quais eu não passei, mas eu tenho quase certeza que não agiria dessa forma.

Também não me conformei com a investigação que foi feita no ataque à Shelley. A polícia convenientemente aceitou a versão das meninas que ela tinha ido fumar e acidentalmente colocado fogo nela mesma. Não havia nenhuma prova disso. Muito pelo contrário, tudo apontava muito mais para as meninas do que para ela. Ela não estava com nenhum cigarro ou isqueiro quando foi encontrada (não lembro se a menina que colocou fogo deixou o isqueiro lá, mas se o examinassem, não teria nenhuma digital da Shelley e sim da outra menina). Além de que ela foi agredida antes de colocarem fogo.

Porém, o pior de tudo para mim foi a mudança que a Shelley sofreu após elas terem matado o bandido. A menina que nunca fez nada de repente virou quase uma serial killer. O bandido fez muito menos para ela do que as ex-amigas. Obviamente não o estou defendendo, ela estava em uma situação de extrema tensão e se sentindo injustiçada por novamente estar sofrendo e não tinha como saber se o bandido voltaria para fazer algo pior. Mas achei que ele foi apenas um bode expiatório para todo o ódio que ela tinha guardado. 
Depois, ela começou a agir como se a morte dele tivesse sido uma coisa boa que ela fez, uma coisa corajosa. Ela quis guardar a carteira de motorista dele como um troféu, pra se lembrar para sempre do que tinha feito. Depois, quando ela e a mãe estavam perseguindo o chantagista para matá-lo, ela se sentia feliz com isso. Como disse lá em cima, sempre tenho medo de estar falando besteira quando julgo as pessoas dessa forma, mas não acho que um assassinato que você cometeu em um momento extremo seja um ato do qual você deva se orgulhar, algo que vai fazer você ser uma pessoa melhor. Uma pessoa mais dura, mais fria sim, mas uma pessoa melhor, eu acho bem difícil. E foi exatamente o que ela falou no final do livro, que se tornara uma pessoa ainda melhor. Isso depois de se se vangloriar do seu feito de ter matado dois homens. 
Fiquei realmente incomodada com o fato do livro associar eventos tão ruins ao crescimento e a satisfação da personagem com ela própria.  


---------------------------------------FIM DOS SPOILERS---------------------------------------